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Filantropia O dono da Microsoft desafia
cientistas
O programa foi anunciado por Gates em 2003, durante o Fórum Econômico Mundial, na Suíça. Na ocasião, ele lançou um desafio à comunidade científica internacional: encontrar soluções para uma série de obstáculos que impedem o combate a doenças e à miséria nas regiões mais esquálidas do mundo. Sua fundação se encarregaria de financiar o desenvolvimento dos melhores projetos. A seguir, criou-se um comitê para receber e avaliar as propostas. Desde então, mais de 1 000 delas foram enviadas por cientistas do mundo inteiro, vários deles detentores de prêmios Nobel. Finalmente, foram selecionados 43 projetos em catorze áreas consideradas críticas (veja alguns deles no quadro abaixo). Eles agora começam a receber os recursos para se materializar. O regulamento do programa permite que os cientistas registrem a patente de seus inventos, mas os obriga a licenciá-la aos países pobres por um preço quase simbólico. "Gates está financiando os cientistas para beneficiar pessoas esquecidas pelas grandes companhias farmacêuticas, interessadas somente nos mercados ricos", disse a VEJA Susan Raymond, ex-analista para projetos humanitários do Banco Mundial e autora do livro Philanthropy and the Future: Economics, Ethics, and Management (Filantropia e o Futuro: Economia, Ética e Administração). Para combater doenças em regiões muito pobres, os médicos e sanitaristas deparam com problemas gigantescos. A coqueluche e o sarampo, por exemplo, podem ser prevenidos com vacinas, mas elas devem ser mantidas sob refrigeração, o que impede seu transporte e uso em regiões onde não há energia elétrica. "Pode parecer absurdo, mas o sarampo ainda mata 2 000 crianças por dia no mundo", disse a VEJA Robert Sievers, professor de bioquímica da Universidade do Colorado e um dos contemplados pelo novo programa de Gates. O projeto de Sievers e sua equipe consiste numa vacina contra o sarampo em forma de pó a ser inalado e que dispensa refrigeração. Tecnologia semelhante será utilizada para imunizar as populações contra a coqueluche. A vacina que se usa hoje para combater a doença, que ainda mata 300 000 crianças por ano, apresenta uma dificuldade adicional além da necessidade de refrigeração: ela precisa ser aplicada em quatro doses, com um intervalo de tempo entre elas. Em regiões onde não há meios de transporte, vacinar cada criança quatro vezes torna-se um imenso desafio logístico. Além de acabar com as doenças endêmicas, o programa Grand Challenges in Global Health pretende combater a desnutrição. Para isso, a idéia vencedora é modificar geneticamente os alimentos consumidos pelas populações pobres, para que eles adquiram maior valor nutritivo. Hoje, 250 milhões de africanos se alimentam praticamente só de mandioca, que tem poucos nutrientes. Segundo os cientistas da Universidade de Ohio beneficiados pelo programa de Gates, é possível criar uma mandioca transgênica com teores de proteína e vitamina suficientes para suprir a maior parte das necessidades alimentares dessas populações. O mesmo poderia ser feito com o arroz e a banana. Seguindo uma tendência
crescente entre os filantropos americanos, Bill e Melinda Gates fazem questão de
conferir pessoalmente onde está sendo aplicado cada centavo das doações de sua
fundação. Para isso, fazem rotineiramente o que chamam de "viagens de
aprendizado". Embrenham-se pelas regiões miseráveis atendidas por seus
programas, verificam o atendimento em hospitais, visitam favelas e
solidarizam-se com as famílias. "Essas viagens nos fazem muito bem", declarou
Melinda numa entrevista recente. As fotos do casal abraçando criancinhas pobres
também ajudam a melhorar a imagem de Gates, que já foi processado pelo governo
americano por prática de monopólio e tem fama de empresário que usa de qualquer
recurso para vencer nos negócios. Calcula-se que, em seis anos de existência, a
Fundação Bill & Melinda Gates já ajudou a salvar 700.000 vidas apenas com
seus programas de vacinação. A entidade gasta anualmente em projetos sociais o
mesmo que a Organização Mundial de Saúde, órgão da ONU. Assim como revolucionou
a informática com os softwares que fabrica, Gates quer estar à frente do
crescente esforço internacional para acabar com os bolsões de miséria no
Terceiro Mundo. Faz bem a ele, faz bem ao mundo.
Prof. Marcelo
Silva, M. Sc.
Engenheiro Químico
(UFRRJ)
Mestre em Ciências em
Eng. Met. e de Materiais (PEMM/COPPE/UFRJ)
Doutorando em
Engenharia Química (PEQ/COPPE/UFRJ)
Professor Auxiliar I da
UNESA
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