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Bill Gates - Deus ou Diabo?: msg#00028

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Subject: Bill Gates - Deus ou Diabo?

 

Filantropia
A cruzada de Gates contra a pobreza

O dono da Microsoft desafia cientistas
a encontrar soluções para erradicar
doenças e eliminar a fome nas áreas
mais pobres do mundo. E gasta
450 milhões de dólares nisso


Rafael Corrêa


Que aspirações pode ter um homem cuja fortuna chega à casa das dezenas de bilhões de dólares? Há bilionários que realizam a fantasia de bancar o astronauta e fazem turismo no espaço. Outros erguem obras faraônicas para marcar sua passagem pelo planeta. E há a turma da filantropia, que acha justo doar uma parte polpuda do que ganha em benefício da sociedade. O homem mais rico do mundo, o empresário americano Bill Gates, dono da Microsoft, faz parte desse grupo. Desde 2002, ele encabeça a lista dos maiores filantropos dos Estados Unidos, publicada pela revista BusinessWeek (apenas em 2005 ficou em segundo lugar). E a que aspira Gates ao abrir mão de parte de sua fortuna pessoal de 51 bilhões de dólares? Ele quer reduzir drasticamente a pobreza no mundo. Desde que criou com sua mulher a Fundação Bill & Melinda Gates, em 2000, o empresário já doou 29 bilhões de dólares para financiar programas de saúde pública e combate à fome nas regiões mais miseráveis da África e da Ásia. Agora, Gates acaba de assinar um cheque de 450 milhões de dólares para bancar o que considera o maior desafio de sua cruzada filantrópica, o programa Grand Challenges in Global Health ? em português, grandes desafios da saúde global.

O programa foi anunciado por Gates em 2003, durante o Fórum Econômico Mundial, na Suíça. Na ocasião, ele lançou um desafio à comunidade científica internacional: encontrar soluções para uma série de obstáculos que impedem o combate a doenças e à miséria nas regiões mais esquálidas do mundo. Sua fundação se encarregaria de financiar o desenvolvimento dos melhores projetos. A seguir, criou-se um comitê para receber e avaliar as propostas. Desde então, mais de 1 000 delas foram enviadas por cientistas do mundo inteiro, vários deles detentores de prêmios Nobel. Finalmente, foram selecionados 43 projetos em catorze áreas consideradas críticas (veja alguns deles no quadro abaixo). Eles agora começam a receber os recursos para se materializar. O regulamento do programa permite que os cientistas registrem a patente de seus inventos, mas os obriga a licenciá-la aos países pobres por um preço quase simbólico. "Gates está financiando os cientistas para beneficiar pessoas esquecidas pelas grandes companhias farmacêuticas, interessadas somente nos mercados ricos", disse a VEJA Susan Raymond, ex-analista para projetos humanitários do Banco Mundial e autora do livro Philanthropy and the Future: Economics, Ethics, and Management (Filantropia e o Futuro: Economia, Ética e Administração).

Para combater doenças em regiões muito pobres, os médicos e sanitaristas deparam com problemas gigantescos. A coqueluche e o sarampo, por exemplo, podem ser prevenidos com vacinas, mas elas devem ser mantidas sob refrigeração, o que impede seu transporte e uso em regiões onde não há energia elétrica. "Pode parecer absurdo, mas o sarampo ainda mata 2 000 crianças por dia no mundo", disse a VEJA Robert Sievers, professor de bioquímica da Universidade do Colorado e um dos contemplados pelo novo programa de Gates. O projeto de Sievers e sua equipe consiste numa vacina contra o sarampo em forma de pó a ser inalado e que dispensa refrigeração. Tecnologia semelhante será utilizada para imunizar as populações contra a coqueluche. A vacina que se usa hoje para combater a doença, que ainda mata 300 000 crianças por ano, apresenta uma dificuldade adicional além da necessidade de refrigeração: ela precisa ser aplicada em quatro doses, com um intervalo de tempo entre elas. Em regiões onde não há meios de transporte, vacinar cada criança quatro vezes torna-se um imenso desafio logístico.

Além de acabar com as doenças endêmicas, o programa Grand Challenges in Global Health pretende combater a desnutrição. Para isso, a idéia vencedora é modificar geneticamente os alimentos consumidos pelas populações pobres, para que eles adquiram maior valor nutritivo. Hoje, 250 milhões de africanos se alimentam praticamente só de mandioca, que tem poucos nutrientes. Segundo os cientistas da Universidade de Ohio beneficiados pelo programa de Gates, é possível criar uma mandioca transgênica com teores de proteína e vitamina suficientes para suprir a maior parte das necessidades alimentares dessas populações. O mesmo poderia ser feito com o arroz e a banana.

Seguindo uma tendência crescente entre os filantropos americanos, Bill e Melinda Gates fazem questão de conferir pessoalmente onde está sendo aplicado cada centavo das doações de sua fundação. Para isso, fazem rotineiramente o que chamam de "viagens de aprendizado". Embrenham-se pelas regiões miseráveis atendidas por seus programas, verificam o atendimento em hospitais, visitam favelas e solidarizam-se com as famílias. "Essas viagens nos fazem muito bem", declarou Melinda numa entrevista recente. As fotos do casal abraçando criancinhas pobres também ajudam a melhorar a imagem de Gates, que já foi processado pelo governo americano por prática de monopólio e tem fama de empresário que usa de qualquer recurso para vencer nos negócios. Calcula-se que, em seis anos de existência, a Fundação Bill & Melinda Gates já ajudou a salvar 700.000 vidas apenas com seus programas de vacinação. A entidade gasta anualmente em projetos sociais o mesmo que a Organização Mundial de Saúde, órgão da ONU. Assim como revolucionou a informática com os softwares que fabrica, Gates quer estar à frente do crescente esforço internacional para acabar com os bolsões de miséria no Terceiro Mundo. Faz bem a ele, faz bem ao mundo.


OS PROJETOS PARA MUDAR O MUNDO

Os principais projetos financiados por Bill Gates e como os pesquisadores esperam obter resultados

VACINAS MAIS VERSÁTEIS

O desafio
Criar vacinas que não dependam de refrigeração, inexistente em regiões miseráveis

A solução
Vacinas em forma de pó, para ser inaladas através de um tubo ou ingeridas depois de misturadas a algum líquido. Os pesquisadores estão criando ratos geneticamente alterados para adquirir um sistema imunológico semelhante ao humano e facilitar os testes de novas vacinas

LUTA CONTRA A AIDS

O desafio
Tornar o ser humano imune ao vírus HIV

A solução
Estudar a fundo o sistema imunológico das prostitutas do Quênia e de outras regiões africanas que são regularmente expostas ao vírus da aids mas não contraem a doença. A seguir, reproduzir esses mecanismos de defesa por meio de remédios

COMBATE À DENGUE E À MALÁRIA

O desafio
Inibir a propagação da doença através dos mosquitos que a transmitem

A solução
Elaborar repelentes que ajam nos sensores de olfato dos mosquitos, localizados em suas antenas, para evitar que eles farejem os seres humanos. Um segundo caminho é usar uma bactéria que, transmitida hereditariamente, diminuiria o ciclo de vida do mosquito

ALIMENTOS CONTRA A SUBNUTRIÇÃO

O desafio
Aumentar o valor nutricional de alimentos que constituem a única fonte de subsistência de populações carentes, como a mandioca

A solução
Por meio de alterações genéticas, criar superplantas que supram praticamente todas as necessidades nutricionais do organismo, além de ser mais resistentes a períodos de seca e germinar em terras pouco férteis

EXAMES INSTANTÂNEOS

O desafio
Realizar exames clínicos de forma rápida e barata em áreas remotas sem os aparatos dos laboratórios convencionais

A solução
Desenvolver um laboratório portátil. O aparelho utilizaria nanotecnologia e poderia identificar a presença de doenças infecciosas, anemia e aids, com apenas uma gota de sangue, em dez minutos



HA QUEM DOE AINDA MAIS

Na última lista de maiores filantropos americanos elaborada pela revista BusinessWeek, Bill Gates perdeu o primeiro posto para Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, a gigante dos chips de computador. A lista leva em conta as doações feitas nos cinco anos anteriores. De 2001 a 2005, Moore doou 7 bilhões de dólares, contra 5,5 bilhões do dono da Microsoft. Moore tornou-se uma lenda na área da tecnologia da informação ao prever, ainda em 1965, que a capacidade dos processadores, os chips, dobraria a cada dois anos. Na época, muita gente o chamou de louco. Hoje, com a profecia cumprida, ela é chamada de Lei de Moore. Como filantropo, Moore financia programas de conservação de ecossistemas marinhos e florestais. Na Amazônia andina, banca estudos científicos para medir os efeitos da destruição da mata. Na Península de Kamchatka, na Rússia, incentiva a preservação do salmão selvagem. Da mesma forma que Gates, ele faz questão de fiscalizar pessoalmente a correta aplicação de suas doações.

Moore, assim como Gates, fez fortuna cedo na vida. Ambos iniciaram seus projetos filantrópicos ainda jovens. É o contrário do que ocorria no passado com os grandes nomes da filantropia americana. Eles costumavam fazer doações apenas em testamento. A grande exceção foi John D. Rockefeller (1839-1937), que adotou como princípio doar um porcentual de tudo o que ganhava desde que se empregou como escriturário, com um salário semanal de 10 dólares. Depois que criou a Standard Oil, aos 31 anos, e se tornou o homem mais rico dos Estados Unidos, manteve o hábito, financiando dezenas de projetos nas áreas de saúde pública e educação.

Prof. Marcelo Silva, M. Sc.
Engenheiro Químico (UFRRJ)
Mestre em Ciências em Eng. Met. e de Materiais (PEMM/COPPE/UFRJ)
Doutorando em Engenharia Química (PEQ/COPPE/UFRJ)
Professor Auxiliar I da UNESA
 
 
 
 

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