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O PAPA FOI UM SANTO?: msg#00037education.brazil.infoestacio
O papa foi um santo? Rodrigo Ricúpero Doutorando em História do Brasil pela USP ? O mundo inteiro acompanhou nas últimas semanas a piora no estado de saúde do papa João Paulo II. Ele faleceu neste sábado, 3 de abril, após longa agonia, explorada pela Igreja Católica com ajuda dos meios de comunicação de todo planeta. O clima de comoção, principalmente entre os cerca de 1 bilhão de católicos no mundo, deve continuar e, no Brasil, o refrão da visita de 1980, ?nosso povo te abraça?, será repetido à exaustão. Aos que neste momento sofrem a morte do papa como um dos seus, queremos recordar o papel de João Paulo II na direção da Igreja Católica, abraçando não o povo, mas os ditadores, o imperialismo norte-americano e os setores mais conservadores do clero. Nas últimas semanas, surgiram, por todos os lados, livros, revistas e artigos biográficos, que, com raras exceções, enaltecem João Paulo II. Ele aparece como lutador pela paz e defensor dos povos oprimidos. Foi chamado de ?o homem do século? ou ainda se diz mesmo que ele ?mudou o mundo?!. Desta forma, vai construindo-se um mito em torno ao papa polonês, abrindo caminho, inclusive, para sua canonização, ou seja, para que seja declarado oficialmente como mais um santo da igreja. Escolhido para ser o líder da Igreja Católica em 1978, o polonês Karol Wojtyla, adotaria o nome de João Paulo II, era o primeiro papa não italiano em séculos. Simbolicamente, pouco depois foi rezar no túmulo do fundador da organização ultra-reacionária Opus Dei, deixando claro sua identidade com o espírito e objetivos do grupo, tais como o anti-comunismo e a defesa de posições conservadores em matéria de comportamento moral, sexual e familiar. Rapidamente, o papa assumiu uma postura política ativa, utilizando como instrumentos suas viagens pelos vários países, discursos e textos. Coincidentemente, dois anos depois, Ronald Reagan chegaria à Presidência dos EUA, com forte discurso conservador, iniciando um novo período de convergência entre o Vaticano e a Casa Branca, formando o que Richard Allen, presidente do Conselho de Segurança Nacional de Reagan, chamou de ?a maior aliança secreta dos tempos modernos?. A atuação inicial de João Paulo II foi particularmente nos dois pontos-chaves da cena internacional na virada da década 70 para 80: Polônia e Nicarágua. O papa visitou a Polônia em 1979, iniciando uma virada na posição adotada até então pela Igreja, que era o diálogo com o governo stalinista. O Vaticano passou a apoiar abertamente os grupos de oposição. A ação do Papa em conjunto com a CIA, como confirmou recentemente o general Vernon Walters, antigo diretor da CIA, num documentário produzido pela BBC (rede estatal de TV da Inglaterra), tinha como objetivo contribuir moral e financeiramente com os setores do movimento de oposição que defendiam a restauração capitalista contra os que combatiam a burocracia mas que defendiam a propriedade social. Assim, o governo norte-americano, além de trocar informações com o Vaticano, aproveitou as organizações da Igreja Católica para remeter recursos e divulgar sua propaganda em favor do capitalismo. Na Nicarágua, o ponto alto da política do Vaticano foi a viagem do papa em 1983, quando este condenou a participação de padres no governo da Frente Sandinista e apoiou abertamente a cúpula da Igreja que fazia oposição ao novo regime, inclusive promovendo o arcebispo de Manágua a cardeal. Aqui, novamente o Vaticano associou-se à Casa Branca em uma grande campanha contra os sandinistas, que contou com o enviou de fundos da Agência de Desenvolvimento Internacional, órgão do governo dos EUA, para a oposicionista Arquidiocese de Manágua; com a propaganda feita de dentro dos EUA por organizações como o Instituto sobre Religião e Democracia ou ainda com ações e atos impulsionados diretamente pela Igreja contra medidas do governo nicaragüense, que obtinham o pleno apoio do embaixador norte-americano em Manágua. Ainda na América Latina, o papado, antes e depois de João Paulo II, apoiou claramente as diversas ditaduras militares. No Chile, um dos grandes aliados do general Pinochet foi o arcebispo Angelo Sodano, núncio apostólico, ou seja, embaixador do Vaticano naquele país. Sodano, até a morte do papa, era a segunda autoridade do Vaticano, ocupando a função de secretário de Estado. A velha amizade com Pinochet levou que o Vaticano solicitasse de imediato a libertação do ditador, quando este esteve detido na Inglaterra, a pedido da Justiça espanhola. O mesmo ocorreu na Argentina, onde os generais encontraram no núncio dom Pio Laghi um leal parceiro, o que levou que a Associação das Mães da Praça de Maio, que reúne famílias de desaparecidos políticos, a processá-lo junto à Justiça italiana. Ainda neste país recentemente o bispo capelão-mor do exército disse que os defensores do aborto deveriam ser jogados no mar, prática que a ditadura se valeu inúmeras vezes para livrar-se dos presos políticos, tendo recebido total apoio do Vaticano após esta infame declaração. Até mesmo na escolha dos santos pode-se perceber a relação com as ditaduras. João Paulo II transformou em santo Josemária Escrivá, fundador da Opus Dei (Obra de Deus), organização secreta de extrema-direita, criada na Espanha e intimamente ligada a ditadura franquista. O ?santo? Josemária era conselheiro espiritual do ditador espanhol Franco. O papa João Paulo II também fortaleceu a organização Opus Dei, ao isentá-la da autoridade dos bispos locais, vinculando-a diretamente ao Vaticano. O re-ordenamento da ordem mundial não alterou a política de proximidade com o governo norte-americano, embora seus discursos sejam recheados de apelos pela paz, o Papa apoiou a primeira guerra contra o Iraque e em nenhum momento condenou ou combateu a segunda. Além disso, sua visita a Cuba em 1998, longe de apoiar o país, tinha como objeto, como ele próprio declarou, produzir os mesmos efeitos que sua visita a Polônia em 1979, ou seja, auxiliar o processo de restauração capitalista. A proximidade do papado com os poderosos do mundo, contudo, não é exclusividade do período de João Paulo II. Sem voltarmos para épocas mais recuadas da história, podemos lembrar a conivência do Vaticano com o nazismo de Hitler, recentemente objeto de livros e filmes. Nas palavras do papa Pio XII, que dirigia a Igreja durante a Segunda Guerra Mundial, o inimigo a ser combatido era o comunismo: ?Hitler contra os judeus, é Hitler contra o comunismo?. Daí não se estranhar que muitos nazistas procurados por crimes de guerra tenham conseguido fugir da Europa com ajuda do Vaticano. O apoio às ditaduras militares, o anti-comunismo e o combate aberto aos regimes que se opõem ao imperialismo caminham paralelamente a uma luta interna contra todos os setores progressivos dentro da Igreja, favorecendo os setores mais conservadores. Na América Latina, o grande alvo foi a chamada Teologia da Libertação e os setores da Igreja ligados às lutas populares, acusados de introduzir temas marxistas dentro do catolicismo. Um dos principais mecanismos utilizados foi a Congregação para a doutrina da fé (antigo Santo Ofício da Inquisição), dirigida pelo cardeal Ratzinger, um dos membros mais poderosos do Vaticano. Através do novo Santo Ofício, muitos teólogos que ligados à teologia da Libertação ou que não seguiam a ortodoxia pregada pela Igreja Católica, foram censurados, como o caso de Leonardo Boff, tiveram suas obras banidas ou foram proibidos de continuar ensinando em suas universidades. Dessa forma, enquanto a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base e as pastorais sociais perdem espaço dentro da Igreja, movimentos como a Renovação Carismática Católica, do qual o Padre Marcelo é o mais conhecido representante, ganham força. A disputa aqui é entre duas concepções. Enquanto os carismáticos valorizam o aspecto espiritual individual em detrimento do social, os setores ligados às comunidades de base, ao se preocuparem com as questões sociais, acabam por intervir na política ao lado dos mais desfavorecidos. Ainda dentro do contexto de combate aos setores progressistas, o papa João Paulo II nomeou membros mais conservadores do clero para importantes cargos no Vaticano, para os bispados mais importantes ou elevando-os a condição de cardeais, o que, neste caso, facilitaria a eleição de um outro papa reacionário, já que são os cardeais que elegerão o sucessor de João Paulo II. Paralelamente a suas posições políticas conservadoras, o papa João Paulo II defendeu toda uma série de posições sobre comportamento sexual extremamente reacionárias. Aqui, contudo, mais do que posições pessoais, o papa expressava as posições defendidas pelo conjunto da Igreja Católica. Nesse ponto novamente percebe-se a afinidade do Vaticano com a Casa Branca, particularmente durante os governos republicanos de Ronald Reagan, de Bush ?pai? e de Bush ?filho?. Entre os vários temas, três merecem destaque: a posição da Igreja sobre o aborto, a condenação do uso da camisinha, independentemente do avanço da AIDS, e em relação às uniões ou casamentos entre homossexuais. Em seu último livro, João Paulo II causou polêmica ao comparar o aborto, atualmente permitido em vários países, com as formas de extermínio praticadas pelos nazistas nos campos de concentração. Na mesma obra acusa as uniões entre homossexuais de serem uma grave violação a lei de Deus! Afinal seriam uma forma alternativa a família tradicional. Por fim, vale pena lembrar que certos artigos da imprensa procuram mostrar o papa como crítico tanto do socialismo como do capitalismo. Nada mais falso! Para João Paulo II e o Vaticano, o socialismo, de maneira geral, é uma das ?ideologias do mal?. Ao passo que as críticas ao capitalismo são de maneira geral pontuais, e, na maior parte das vezes, tratam de questões como a perda dos valores religiosos na sociedade moderna causadas pelo consumismo ou pela nova moral sexual. E mesmo o discurso pela solidariedade mundial não passa de palavras vazias, sem atacar as causas da miséria ou da exploração. Afinal, um dos conselheiros do órgão encarregado de elaborar e difundir a doutrina social da Igreja Católica, a Comissão de Justiça e Paz, é nada mais nada menos do Michel Camdessus, um dos mais importantes membros do FMI. [ 3/4/2005 00:31:00 ] _______________________________________________________ Yahoo! Acesso Grátis - Internet rápida e grátis. Instale o discador agora! http://br.acesso.yahoo.com/ |
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